sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Peru - Geologia de Lima


Lima é a capital e maior cidade do Peru, localizada na costa do Oceano Pacífico onde desaguam os rios Rimac, Chillon e Lurin, além de outros, formando depósitos recentes de deltas (tipo de formação geológico específica formada pela desembocadura de um rio em um corpo d'água). A leste da cidade, a Cordilheira Ocidental dos Andes se eleva abruptamente, atingindo altitudes de até 6.100m a apenas 130km da costa.

A figura abaixo foi retirada do GoogleEarth (com exagero vertical de 3x - que significa que a cada 1m representado na horizontal há 3m representados na vertical), ela mostra o Oceano Pacífico, uma pequena faixa costeira relativamente plana (+/- ao nível do mar), uma subida abrupta para o nível onde está localizada a cidade de Lima (+/- 150m). Ao fundo é possível visualizar as montanhas que compõem a Cordilheira Ocidental. Além disso, para nos dar uma noção de localização, coloquei o Shopping Larcomar, o Pariwana Hostel (casinha verde), o Circuito de águas dançantes (seta azul), centro histórico de Lima (Seta branca), complexo de compras Mega Plaza (sacolinha vermelha ao fundo) e o aeroporto internacional ao fundo a esquerda.



Figura 1: Imagem do Google Earth com exagero vertical 3x demonstrando variação do relevo aos arredores da cidade de Lima, além de identificar a localização do Shopping Larcomar, Hostel, Circuito das Águas Dançantes, Centro Histório, Mega Plaza e Aeroporto Internacional.



Antes de continuar preciso contextualizar que rochas são divididos em Grupos, então um conjunto de rochas formadas em um mesmo contexto e mais ou menos ao mesmo tempo (tempo geológico) formam um Grupo de rochas, cada grupo é denominado pela pessoa que o identificou, normalmente, recebe o nome da cidade ou  rio ou montanha que está nas proximidades do local tipo de exposição desse grupo. Os grupos são subdivididos em formações que podem ser subdivididas em membros.


Voltando para os Andes Central, podemos afirmar que assim como em toda a Cordilheira dos Andes, a geologia da região de Lima reflete a subducção da Placa de Nazca sob a placa sul-americana e a consequente elevação da cadeia de montanhas e a indução de atividade vulcânica na região. Todos esse processos geotectônicos esculpiram o atual relevo da cidade e dos seus arredores.

Nesse contexto, com o passar dos anos geológicos, foram formadas rochas piroclásticas no jurássico (rochas compostas essencialmente por fragmentos resultantes das atividades explosivas de vulcões) as quais compõe o Grupo Piedra Superior Puente e são recobertas por xistos e quartzitos cretáceos do Grupo Morro-Solar, seguido de 1.000m de calcário das formações Pamplona e Atocongo de idade menor que cretáceo médio. Durante o Cretáceo Médio-Superior, o vulcanismo foi retomado e cerca de 1.500m de andesitos e rochas piroclásticas formaram o Grupo Casma que constitui o leito rochoso no nível estratigráfico mais alto. Todas essas informações são sintetizadas na figura a seguir:



Fonte: Ingemmet



GEOLOGIA DE LIMA



Veja com atenção o mapa a seguir:


Fonte: Ingemmet


Repare que a maior parte do mapa (que engloba a maior parte da cidade, inclusive) é composto pela cor cinza com bolinhas que representa depósitos aluviares de diferentes idades (rochas sedimentares depositadas por processos de gravidade, tipo aqueles escorregamentos que ocorrem lá no Rio de Janeiro em 2011, só que ao longo do Tempo Geológico, então, ocorreram vários e vários eventos parecidos com aqueles escorregamentos, gerando um montão de rochas sedimentares abaixo das grandes encostas), formando uma grande mistura de conglomerados, arenitos e lutitos (diferentes tipos de rochas, mas todas de origem sedimentar formadas pelo mesmo processo gravitacional) cuja rocha fonte está na cordilheira acima.

Na parte superior do mapa, chamam atenção as regiões em vermelho, verde claro e verde escuro do lado direito. Volte lá em cima, na figura em 3D que mostra os principais pontos que visitaremos em Lima (Figura 1), observe que logo atrás do centro histórico há as primeiras montanhas bastante dessoante do restante do restante do relevo da região de Lima, pois bem, essas montanhas são rochas pertencentes ao SuperGrupo Patap e Santa Rosa, respectivamente, representadas por gabro-dioritos e andesitos de idade Cretáceo-Superior e Pleistocenio. (Você que não é geólogo leia tudo isso como: montanha de rochas intrusivas de diferentes idades

A região  (ainda na porção superior do mapa) verde escuro  (KI-V) representa a Formação Ventanilla do Grupo Puente Piedra supracitado. Essa formação é composta por uma sequência de vulcano-sedimentar (mistura de rochas vulcânicas com rochas sedimentares) interpretada como uma assembleia originada de um Arco Vulcânico submarino (um monte de vulcões no meio do mar que formam ilhas, como no Havaí hoje em dia). Aparentemente (digo pelo que li, não pelo que vi pq não fui lá mapear) uma formação rica em argilas brancas com limonitas (uma pedrinha branca bem fina com minerais pretinhos que se chamam limonitas), ah! também parece que são rochas ricas em fósseis. Confesso que não fui pesquisar quais são os tipos de fósseis, pois acho difícil acessar, na prática, essas rochas, já que não pretendo parar a viagem para ir lá martelar a montanha (seria ótimo, mas não vai dar tempo). Pretendo apenas enxergar ela do horizonte e conseguir identificar: Olha! Aquela lá é a sequência vulcano-sedimentar que eu li, do Grupo Piedra Puente de idade Jurássico.

Colado na porção vermelha, há uma região do mapa verde claro (KI-m) que representa rochas da Formação Marcavita que é uma formação um tanto quanto mais jovem que a anterior (Cretáceo Inferior), essa formação é constituída por uma sequência de arenitos e argilitos formados em diferentes contextos geológicos e que, posteriormente, foram metamorfisados com a formação dos Andes e se transformaram, respectivamente, em quartizitos e xistos de diversos tipos.


Geólogos e curiosos podem acessar mais informações nos links da referência aqui em baixo. Além disso, muitos outros artigos discutem muito mais informações geológicas sobre a região. Porém, como o intuito do blog não é entrar nos detalhes, mas sim, pincelar por alto as informações geológicas das áreas visitadas, vamos ficar por aqui.


REFERÊNCIAS (Lima)


  • http://bibliotecavirtual.ingemmet.gob.pe:84/xmlui/handle/123456789/2796
  • http://geocatminapp.ingemmet.gob.pe/complementos/Descargas/Mapas/publicaciones/serie_a/mapas/indice.htm
  • Karakouzian, M., Candia, M.A., Wyman, R. V., Watkins, M. R., Hudyma, N. 1997. Geology of Lima, Peru. American Geological Institute, v.3. p. 55-88. 







segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Roteiro América do Sul (Peru-Bolívia-Chile)

Como nosso roteiro pela América do Sul foi criado

Definir o roteiro de uma viagem é uma das partes mais empolgantes da trip. É o momento de ler sobre os países, buscar informações do que ver, visitar e onde ir, além de se auto imaginar em cada lugarzinho que você visualizou pelas fotos da internet. Descobrir informações sobre as temperaturas, clima e, no nosso caso, altitude de cada canto que queremos estar.

Porém, essa etapa é seguida de uma outra bem chatinha que é: cortar coisas. Tem muita coisa para ver, mas infelizmente há dois fatores limitantes na vida de todos nós: Tempo e Dinheiro.

Tendo em mãos onde queríamos ir, quanto tempo tínhamos e quanto dinheiro poderíamos dispor no momento, chegamos ao roteiro que vai subsidiar as informações geológicas deste blog. O destino já sabíamos: América do Sul. Os países também: Peru, Bolívia e Chile. Os três foram escolhidos pensando justamente em passeios e tours que envolviam conhecer lugares e paisagens que são completamente diferente das que encontramos aqui no Brasil: Desertos, Oásis, Salar, Lagunas, Géisers, Montanhas e Vulcões estarão pelo nosso caminho.

Vou adiantar aqui o roteiro para vocês: Brasília → Guarulhos (escala)  Lima → Ica → Huacachina → Ica → Lima → Cusco → Copacabana → La Paz → Uyuni → San Pedro do Atacama → Calama → Santiago (escala) Guarulhos (escala) Brasília.

Agora, vamos falar de como chegamos a este percurso.

O primeiro ponto é definir por onde começar e onde terminar. A maneira mais barata (e que leva mais tempo) é fazer um roteiro circular, começando e terminando na Bolívia, precisamente por Santa Cruz de La Sierra. Mas seguir com esse roteiro nos tomaria algo que não tínhamos muito a disposição, no caso, o tempo.  Buscamos então uma forma de levar menos tempo nos deslocamentos, mas que ainda fosse economicamente viável. Para levar menos tempo optamos por iniciar a trip em um país (Peru), atravessar o outro (Bolívia) e terminar no terceiro (Chile). Para deixar isso economicamente viável embarcaremos em algumas longas horas de escalas e emitimos as passagens utilizando milhas já que comprar o trecho de ida separado do de volta é muito mais caro (+/- 2mil reais cada trecho) do que comprar o trecho com milhas (18mil milhas ida e 20mil milhas volta). Mesmo assim não saiu exatamente barato, mas decidimos investir um pouco mais no custo e ganhar no tempo.  

O primeiro país: Peru.

O Peru vai nos proporcionar contrastes fantásticos. Iremos sair de Brasília, há 1.172m, vamos para lima, nível do mar, passaremos por Ica, há 406m, e chegamos, por fim, em Cusco, 3.399 metros acima do nível do mar.

Lima será nossa primeira cidade. É a capital do Peru e os passeios aqui serão mais “urbanos”. Andar pelas ruas, arquitetura, centro histórico, sítio huaca pucclana, circuito mágico das águas e Lacomar estão no nosso roteiro.

Ica, na verdade, precisamente Huacachina (uns 5 minutos de Ica), é um oásis incrível. Partiremos de Lima, de ônibus, para Ica, em seguida vamos pegar um táxi para Huacachina. Huacachina é uma espécie de vilarejo de Ica, com população de cerca de 100 pessoas, construído ao redor de um oásis.




De huacachina partiremos também para dois passeios em Paracas: Islas Ballestas e Reserva Nacional de Paracas. As Islas Ballestas impressionam por suas formações rochosas e a diversidade de espécies encontradas na região: Aves, pinguins, lobos e leões marinhos.



Voltaremos para Lima e lá pegaremos um avião para Cusco. A empresa escolhida foi uma peruana, chamada Star Peru, que apresentou o melhor custo-benefício. Faremos este trecho de avião, por que fazê-lo por terra pode significar uma viagem de até 24 horas, enquanto de avião o percusso é feito em cerca de 1 hora. Subir montanhas só é "fácil" voando, o relevo prejudica e dificulta muito a viagem terrestre. Então, voando chegaremos a Cusco, há 3.399 metros do nível do mar, e veremos uma cadeia de montanhas que circunda a cidade e obriga os pilotos a fazerem uma aterrissagem um tanto quanto brusca.

Cusco é um destino completo por si só, oferece tanto aventura, quanto cultura. Aqui optamos pela cultura e uma aventura, digamos, parcial. Está no nosso roteiro: Centro Histórico de Cusco, passeio de quadricíclo para Moray-Maras, Valle Sagrado e, claro, Macchu Picchu, incluindo a subida ao Huayna Picchu. Estando ao vivo nas cidades construídas pelos Incas e, por sorte minha, com duas geólogas de companhia, vamos tentar responder / entender como os Incas construíram estas cidades? De onde vieram essas pedras? Arredores de Cusco? Elas fazem parte das outras formações rochosas encontradas na região? E essas pedras cortadas de forma extremamente retas?


Não iremos fazer (fatores limitantes, lembram?) as famosas Rainbow Mountain. Mas fica o registro aqui para, se possível, que este blog aborde a formação deste complexo. Tenho certeza que é muito interessante.






Ao sairmos de Cusco, damos um até breve (espero) para o Peru e partimos para a Bolívia.

O segundo país: Bolívia

Na Bolívia teremos acesso a um povo com uma cultura bem peculiar. A política externa conduzida por Evo Morales, atual presidente da Bolívia e eleito desde 2005, com foco no fortalecimento do nacionalismo, reverbera por todo o país. Tradicionalmente de origem agrária, a Bolívia parece ter parado no tempo (por volta de 1970), com seus carros, casas, roupas, construções e costumes.

Copacabana será a primeira cidade boliviana que visitaremos. O acesso será via terrestre, um onibûs que parte de Cusco com destino a Copacabana. Subiremos um pouco mais em altitude, Copacabana está localizada há 3 841 metros acima do nível do mar e é a “casa” do Lago Titicaca, apesar deste lago também margear Puno (Peru), é em Copacabana que consideramos que o lago apresenta sua feição mais bonita.



O Lago Titicaca é considerado o lago mais alto (de altitude) do mundo. Nossa visita à Copacabana contará com um passeio pelo Titicaca e uma passada rápida na famosa isla del sol.

De Copacabana partiremos para La Paz. La Paz não é a capital da Bolívia, mas é a sede do Governo Boliviano (A capital constitucional da Bolívia é Sucre). La Paz está a 3.660 metros acima do nível do mar, localizada em um vale rodeado por montanhas de grande altitude que pertencem a Cordilheira dos Andes. Estão previstos passeios por Tiwanaku (um sítio arqueológico pré-colombiano), Chacaltaya (pico da cordilheira dos Andes que abrigava a estação de esqui mais alta do mundo, atualmente desativada), Valle de la Luna (Sítio arqueológico apelidado assim devido a suas formações rochosas aparentarem o solo da Lua) e o famoso Downhill na estrada da morte.



Saindo de La Paz optamos por seguir para Uyuni, outro ponto alto do nosso roteiro. Nossa intenção: Fazer o Salar de Uyuni com transfer para o Atacama. O percurso entre La Paz e Uyuni também será feito via terrestre, de ônibus.

Uyuni é a base para partir para o Salar de Uyuni que é a maior planície de sal do mundo. O tour de 3 dias passa pelo Salar e também pela Reserva Eduardo Avaroa. Durante estes dias montanhas, vulcões, lagunas e geisers nos acompanharão pela paisagem.




As montanhas que se encontram na Reserva Eduardo Avaroa fazem fronteira com o Chile. Por este motivo, as empresas de turismo oferecem o transfer para o Chile, levando os mochileiros até San Pedro do Atacama.


O Terceiro país: Chile

Após a travessia chegaremos em San Pedro do Atacama. Cidade considerada como uma das mais famosas de todo o Chile, é a base para os passeios que saem para o deserto do atacama, último ponto alto de nossa viagem. Em San Pedro do Atacama, os passeios irão variar de altitude por volta de 3.500 metros acima do nível do mar, podendo ultrapassar até 4 000 metros em determinados pontos.



Para San Pedro do Atacama temos programado passeios pelo Valle de la Luna, Piedras Rojas, Lagunas Altiplânicas, Salar de Tara e um Tour Astronômico. Contrário do que pode parecer ao se falar que vai visitar um deserto (paisagem monótona, mesma coisa de sempre, um monte de areia junto), San Pedro do Atacama surpreende ao oferecer diversidade em suas paisagens e atividades a serem feitas: As formações rochosas do Valle de La Luna e suas cavernas, o SandBoard nas dunas do deserto, o vermelho das Piedras Rojas, lagunas com águas de cores inacreditáveis, vulcões ainda ativos e gêiseres gigantescos.









Em San Pedro do Atacama iniciaremos nossa peregrinação de volta para casa. Um transfer irá nos leva de San Pedro do Atacama para Calama (cerca de 100 km de distância). Não visitaremos nada em Calama, ela é uma cidade apenas de transferência, nosso voo com destino para Brasília parte de lá. Nossa conexão será Calama → Santiago → São Paulo → Brasília. E, enfim, chegaremos em casa depois de mais de 20h de viagem.



Texto: Renata Brito Tanizaki
Ilustrações: Inúmeras fontes da internet

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Cordilheira dos Andes


Depois de trabalhar nas informações para postar aqui no blog, cheguei a uma conclusão de algo que eu já vinha desconfiando há algum tempo: as informações estão disponíveis aos montes na internet, mas em regra, são ruins. É fácil achar informação, mas é difícil selecionar informações precisas, verdadeiras e sólidas.

Tive que "apelar" para buscas em artigos científicos de Professores e Pesquisadores que publicam em revistas renomadas e reconhecidas no mundo acadêmico. Confesso que não sei se conseguirei manter o padrão de alto nível de informação para todos os assuntos que pretendo um dia abordar aqui no blog.

Depois desse "desabafo", vamos ao que interessa: a Cordilheira dos Andes!!!


A CORDILHEIRA DOS ANDES

A Cordilheira dos Andes é o típico exemplo de zona de subducção do tipo andina caracterizada pela subducção de uma placa oceânica sob uma placa continental culminando no soerguimento de uma cordilheira sem uma colisão continental.Localizada ao longo da margem pacífica da América do Sul, a cordilheira se estende por cerca de 8.000km desde a Venezuela até a Terra do Fogo, passando pela Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Chile e a Argentina É considerada a maior cadeia de montanhas do mundo em extensão.

Como qualquer outra cadeia de montanhas, os Andes foram soerguidos por um complexo Sistema Orogênico, ou talvez até melhor dizendo, por um complexo conceito chamado orogênese. Orogênese (do gregoOros, montanha; e genesis, formação) é o conjunto de processos que levam à formação de montanhas ou cadeias de montanhas produzido principalmente pelo diastrofismo (dobramentos, falhas ou a combinação dos dois aquilo que chamei na publicação anterior de "conjunto de eventos que fazem a montanha crescer para cima"), ou seja, pela deformação compressiva da litosfera continental.

Dessa forma, podemos considerar que a evolução dos Andes se iniciou no Jurássico, concomitantemente com o sistema de arco  (os vulcões dos Andes que enfileirados formam um arco) que se desenvolveu acima da placa subductada ao longo da margem oeste da América do Sul, durante e depois da quebra do Supercontinente Pangea no Mesozóico. A Cadeia Andina foi formada por um complexo Sistema Orogênico que envolve a subducção da crosta oceânica da placa de Nazca sob a Placa Sulamericana, além de outros processos geológicos como colisão, acreção, erosão, extensão, sedimentação, magmatismo e metamorfismo.

A Cordilheira dos Andes é um fantástico complexo de montanhas único no mundo, este complexo inclui os vulcões ativos mais altos do mundo (> 6.800m), os picos mais elevados com a exceção dos picos do Himalaia (> 7.000m), o segundo maior platô (ou planalto) em altura  e área (sendo o maior o do Tibet), o mais importante platô vulcânico com caldeiras terciárias de Ignibritos (rochas novas que surgiram com o desenvolvimento da cadeia de montanhas) em meio a crosta continental encurtada (aquele monte de rochas antigas que foram apertadinhas e "cresceram para cima"), bacias foreland profundas e enormes e preciosos depósitos de metais como Cobre (Cu), Ouro (Au) e Prata (Ag), além de possuir depósitos de óleo.

ETIMOLOGIA

(Fonte: http://etimologias.dechile.net/?Andes)

Existem diversas teorias para a a origem da palavra "Andes", sendo a mais provável a que afirma que derivou da palavra "quechua" do idioma dos Incas que significava  "el hablar del valle". Segundo "Los Comentarios reales de los Incas" (1609) escritos por Inca Garcilaso de la Vega (1539-1616): 

"Os reis Incas dividiram seu império em quatro partes: Tihuantin-Suyu que significa "as quatro parte do mundo", conforme as quatro partes principais do céu: oriente (leste), poente (oeste), setentrional (norte) e meridional (sul). Eles denominaram a parte do oriente "Antisuyu" de uma província chamada "Anti", depois, passaram a denominar de"Anti" toda aquela cordilheira de serra nevada que passa no oriente do Peru."

A mudança de "Anti" par ao castelhano "Andes" se explica pois em quechua não se usa o som expressado pela consoante "d", mas em castelhano sim. Segundo o Dicionário Bilingues Quechua-Castellano de Teofilo Laime Ajacopa y del Gobierno Regional del Cusco, Anti significa oriente, ou seja, ponto cardeal onde o sol nasce (para nós, tipicamente, leste).



MORFOLOGIA

Classicamente, a Cordilheira dos Andes foi dividida segundo a sua morfologia pelo Geólogo Augusto Gansser (1973) em Andes Setentrional (norte), Andes Central e Andes Meridional (sul). Os critérios utilizados nesta divisão foram: fisiográficos, litológicos, estruturais, tectônicos, vulcanológicos e sísmicos.


  1. Andes Setentrional: localizado ao norte do Golfo de Guayquil, na porção norte da cordilheira, inclui áreas do Equador, Venezuela e Colômbia.
  2. Andes Central: área limitada ao norte pelo Golfo de Guayquil (4ºS) e ao sul pelo Golfo de Penas (46º30'S), inclui área do Peru, Bolívia, Chile e Argentina.
  3. Andes Austral: localizado ao sul do Golfo de Penas, ao sul da cordilheira, inclui os denominados Andes Patagônicos e os Andes Fueguinos.

Figura 1: Compartimentação da Cordilheira dos Andes: NVZ - Zona Vulcânica Setentrional; CVZ - Zona Vulcânica Central e SVZ- Zona Vulcânica austral. Nos setores que não há atividade vulcânica a Placa da Nazca é superficialmente subductada, por isso não chega a formar magmas para formar atividade vulcânica (Seyfried et al., 1998).


Com o avanço dos estudos, novas classificações para a cordilheira foram surgindo. Atualmente, uma das mais utilizadas, considera a morfologia e geologia e apresenta fortes influências da idade, geometria e morfologia da subducção da placa oceânica, mantendo a classificação clássica das três zonas vulcânicas, conforme o mapa acima. Essa nova classificação, considera a divisão anterior, mas acrescenta subdivisões: Andes do Norte, Andes Central Norte, Andes Central Sul, Andes Patagônicos e Andes do Sul, como ilustra o mapa a seguir:

Figura 2: Divisão moderna da Cordilheira dos Andes: Andes do Norte, Andes Central Norte, Andes Central Sul e Andes do Sul. (Kay et. al, 2005)

Então, a nova classificação mantém a ideia do limite norte dos Andes Central, mas trás o seu limite sul para a altura do 33ºS e subdivide a porção sul em Andes Patagônico e Andes do Sul.


ANDES SETENTRIONAL

Na fronteira da Colômbia e Equador os Andes constituem uma única cordilheira com picos vulcânicos de até 5.000m, mais ao norte (+/- na latitude 1ºN), a cordilheira se divide em duas: ocidental (western Cordilleira) e central (Central Cordillera). Ainda mais ao Norte (+/- na altitude 2,5ºN), a Cordilheira Central se ramifica, originando a Cordilheira oriental (Eastern Cordilllera) que se subdivide em Cordilheira de Mérida e Serra de Perijá, conforme ilustra a figura 3 abaixo.

Tentei usar o esquema de cores para ajudar a ligar "cara/pessoa", no texto com a figura em baixo.. espero que tenha ajudado. Minha dica é leia com calma e busque a informação escrita no texto na figura, assim ficará muito mais claro.

A cordilheira Central é separada da Ocidental por uma falha geológica ocupada pelo Rio Patia ao sul e pelo Rio Cauca ao norte. A Cordilheira Oriental gradualmente se separa criando a bacia do rio mais importante da Colômbia, Rio Magdalena. Esta cordilheira se estende para o norte e se subdivide em dois braços: a porção oriental que no território venezuelano adquire o nome de Cordilheira de Mérida e o braço ocidental, chamado Serra de Perijá. 



Figura 3: Mapa adaptado do mapa topográfico disponível em EyesColombia.







Então, se fosse possível "recortar" a Cordilheira Setentrional e visualizá-la lateralmente ficaria mais ou menos assim:

Resultado de imagem para andes central oriental
Figura 4: Perfil topográfico da Cordilheira dos Andes Norte, disponível em: EyesColombia.



As cidades mais importantes localizadas nos Andes Sententrionais são Bogotá, Cali e Medellin na Colômbia; Quito e Riobamba no Equadro; e São Cristóvão e Mérida na Venezuela.



ANDES CENTRAL


Os Andes Central incluí áreas do Peru, Bolívia, Chile e Argentina, é considerada a porção com maior conhecimento dos andes e pode ser dividido em: Placa-Peruvian ao norte, Altiplano-Puna platô que inclui a zona central vulcânica (CVZ) e a Placa-Chelean ao sul, conforme a figura a seguir:


Figura 5: Compartimentação da Cordilheira dos Andes Central (Kay et al., 2005).


Com a exceção da Argentina, os países citados acima serão os nossos destinos em nossa planejada viagem, portanto, veremos esse tópico com um pouco mais de detalhes no(s) próximo(s) post(s).

As cidades nesta região: Cusco, La Paz, Uyuni, etc.

ANDES AUSTRAL


Região localizada no sul da América do sul, apresenta todos os tipos de clima e é subdividida em: Andes de transição e Andes do Sul. Essa porção da cordilheira apresenta diversas feições geológicas específicas, a saber: Southern Volcanic Zone (SVZ), Austral Volcanic Zone (AVZ) com adakitos miocenos, falhas normais invertidas mezozóicas e platôs de lavas neogenios. Cabe ressaltar que o vulcanismo ativo está ausente a leste. A SVZ é separada da AVZ pela Tríplice Junção do Chile na altura do Golfo de Penas.

Na latitude 33ºS, há uma planície litorânea, seguida pela Cordilheira da Costa que é separada da Cordilheira dos Andes (a oeste) pela denominada depressão intermediária. A medida que a cordilheira avança para o sul o relevo vai diminuindo devido a erosões glaciais, então, na latitude 54ºS a cordilheira diminui consideravelmente a altitude de seus picos, aparecem canais austrais de água e no extremo leste existe a denominada Planície Megallánica.


Figura 6: Perfis topográficos da Cordilheira dos Andes Sul em diferentes latitudes (33º, 41º e 54º sul), demonstrando a variação do relevo que diminui em direção ao sul.



Andes Patagônicos nada mais são do que a porção da Cordilheira dos Andes no extremo sul da América do Sul, ou seja, na região denominada Patagônia que inclui porções do território chileno e argentino. 

As cidades nesta região: Calama, San Pedro do Atacama, Santiago, Bariloche, Puerto Montt, etc.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


Por fim, daqui pra frente falarei nos próximos posts sobre a Geologia da Zona Central (Lima e Cusco) e a Zona Centro-sul (parte do Peru, Bolívia e Chile). Tentarei focar nas unidades geológicas que existem em cada um dos pontos turísticos mais visitados destes locais. Começando, claro, pelos pontos que nós iremos passar!!! A viagem está quase chegando e eu me sinto muito atrasada nessas postagens. =O

A princípio a ideia é apresentar informações sobre esses locais, mas quem sabe no futuro não me empolgo e continuo adiante quando eu for pra Argentina... ou/e quando for pra Colömbia.. são dois destinos interessantes!






REFERÊNCIAS

  • http://etimologias.dechile.net/?Andes
  • https://eyesoncolombia.wordpress.com/2009/09/05/how-the-andes/
  • Gansser, A. 1973. Facts and theories on the Andes. Journal of the Geological Society of London, (129): 93-131.
  • Kay, S.M., Mpodozis, C., Ramos, V.A., 2005. Andes. Encyclopedia of Geology. Elsevier.  p. 118-131. (http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/B0123693969004111)
  • Seyfried, H., Worner, G., Uhlig, D., Kohler, I., Calvo, C., 1998. Introducción a la geología y morfologia de los andes en el norte del Chile. Universidad de Tarapacá, Arica - Chile, Chungara Volumen 30, nº 1: 7-39.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Geotectônica Simplificada da Cordilheira dos Andes

Confesso que até agora essa foi, de longe, a publicação de maior desafio. Dizer o que todo mundo já sabe é muito fácil e simples: "A Cordilheira dos Andes é uma cadeia de montanhas formada pela subducção da placa de Nazca sob a placa Sulamericana". Tá isso todo mundo já ouviu falar, mas o desafio aqui está em fazer você entender como, como é que uma placa entra de baixo de outra placa e do nada se cria uma cadeia de montanhas lá em cima?

Em geral, pouco nos importa sobre a placa de Nazca, mas quanto a placa Sulamericana importa bastante. É necessário compreender a ideia do que existia antes do início da subducção.

Vou me esforçar para usar palavras e exemplos para que você consiga entender a ideia da coisa, mas para isso já falo logo: geólogos, desculpem-me pelo linguajar.



PLACA SULAMERICANA ANTES DA SUBDUCÇÃO


Há muitos anos atrás, imagine que existia um continente na placa sulamericana. Esse continente era completamente diferente do que é hoje a América do Sul. Ele era algo mais parecido com o que hoje é o território brasileiro, entenda: uma porção de terra continental, formada por vários tipos de rocha diferentes, ou seja, rochas com várias formações e idades distintas, com relevo relativamente plano  (entenda relativamente plano como: NÃO existia uma gigantesca cadeira de montanhas como os Andes com picos de 6.000m, mas também não quer dizer que é um território absolutamente plano, existiam algumas serras de 1.000 e poucos metros de altitude).

O ponto aqui é entender que havia um grande continente formado por inúmeras rochas com contextos de formação e de idade diferentes entre si. Mas como isso é possível? Ora, lembre do Tempo Geológico! A Terra existe há mais de 2,5 BILHÕES de anos, desde então, rochas vem sendo formadas, continentes são criados, continentes são movidos para um lado e para o outro, rochas são  subductadas, às vezes, destruídas, rochas são apertadas umas contra as outras e, assim, rochas com diferentes idades e contextos são unidas num mesmo continente. Isso não é exclusividade da América do Sul, muito pelo contrário, todos os continentes do mundo são assim, compostos por rochas muito, muito antigas, rochas de idade intermediária e rochas recentes.

Não vou detalhar cada um dos tipos de rocha que existia nesse continente, só quero deixar claro que existiam muitas rochas diferentes umas das outras em uma grande massa de terra antes dos Andes existirem. Acredite, em algum momento lá na frente, quando começarmos a detalhar a geologia dos pontos turísticos, essa informação será útil.



INÍCIO DA SUBDUCÇÃO

Agora, tenta pensar em duas massas de terra enormes, ou melhor, gigantes indo uma em direção a outra, e tenta imaginar a força que isso tem. Difícil, né? Mas tenta. Pensa que depois de muito pressionar uma massa contra a outra, em algum momento os corpos físicos precisam ceder e ai sim, finalmente, acontece duas coisas: 1- a placa de Nazca começa a subductar; 2- a placa Sulamericana começa a quebrar e se "amontoar" em si mesma, ou seja, """crescer""" para cima - veja o vídeo abaixo.

Obervação: Lembre sempre do Tempo Geológico. Esqueça dias, esqueça meses e anos, estamos falando em milhares, em milhões de anos.



ELEVAÇÃO DA CADEIA DE MONTANHAS

Um vídeo fala mais do que mil palavras. Esse é um experimento de laboratório que mostra a compressão de uma massa de terra. Agora imagina isso ocorrendo lennnnnntamente (no decorrer do Tempo Geológico) e que ao invés de uma tábua de madeira empurrando da direita pra esquerda era, na verdade, uma outra grande porção de terra empurrando da esquerda pra direita (Placa da Nasca) contra a Placa Sulamericana em algum momento, finalmente, a placa Sulamericana começa a se quebrar e se "amontoar"  se elevando, ou seja, elevando a cadeia de montanhas.


Obs: Os Geólogos vão a loucura vendo com os próprios olhos a formação dos famosos "horses". haha..




GEOTECTÔNICA DE UM AMBIENTE CONVERGENTE

Sabendo de tudo isso, agora vamos ao ambiente tectônico típico de um ambiente convergente, como é o caso da Cordilheira do Andes. Veja a figura:


Em um dado momento (geológico, como sempre), este ambiente se formou e passamos a ter montanhas de rochas antigas ("amassadas") com depressões (essas regiões baixas na figura chamadas de "bacias") e outras coisas associadas. Nesse ambiente, foram formadas rochas (algumas de vulcões, inclusive) relativamente recentes, então, podemos afirmar que coexistem na cadeia de montanhas rochas bem mais antigas (que formavam a antiga placa sulamericana original) e rochas mais jovens (que "acabaram" de se formar com a elevação da cordilheira).

E como sabemos que há mesmo uma subducção? Pelo mapeamento dos hipocentros.

Importante aqui lembrar que hipocentro é diferente de epicentro, veja a figura explicativa.

Resultado de imagem para epicentro e hipocentro


Voltando, o mapeamento dos hipocentros mostra que os pontos de origem do terremotos estão cada vez mais profundos de leste para oeste. Esses pontos marcam o contato da Placa de Nasca com a Placa Sulamericana.

 (Aquele momento que eu paro e penso: "deveria ter feito um post sobre terremotos antes deste")







RESUMO "DA ÓPERA"



Existem basicamente duas coisas bem diferentes nesse contexto todo:

  1. Um conjunto de rochas antigas que formava a placa Sulamericana original;
  2. Rochas mais jovens que se formaram no início da elevação da cordilheira dos Andes e/ou depois da elevação;

Não vou entrar nos detalhes dos processos tectônicos, sedimentares, metamórfico e ígneos muito menos estruturais e geofísicos disso tudo. Não que não seja um tema incrível e fantástico, mas você precisaria de uns 5 anos de curso de geologia pra conseguir compreender tudo isso. Então, talvez, num futuro não tão distante (ou distante) eu faça uma outra publicação para geólogos lerem. É, definitivamente, seria bem produtivo e interessante, mas eu estou cansada só de imaginar. Imagina quem vai ler! hehe...

Espero que tenha ficado claro a ideia de como é que se formam verdadeiras montanhas.

Até a próxima!